Melancia

Eu acho que demorei um pouco pra falar da profecia Maia de que o ano vai acabar em 21 de dezembro de 2012. Pois bem. Nem vou entrar no mérito se vai mesmo acabar, como vai ser ou o que eles queriam dizer com “o fim de um ciclo”. Vou comentar um detalhe mais importante.

Em algum lugar aí diz que o "mundo vai acabar". Ou não.

Atualmente em quase todo o mundo se conta os anos com base no ano do nascimento de um cara bem famoso, o primeiro popstar: Jesus Cristo. Estudiosos e religiosos entraram num consenso de que sua data de nascimento seria pra sempre considerada um marco na história da humanidade. Assim, foi convencionado que a história humana (ocidental, pelo menos) seria dividida em “Antes de Cristo” e “Depois de Cristo”, começando a última a partir do ano 1, o ano em que esse cara nosso magnânimo salvador nasceu (sério, o que seria de nós sem o Natal e todos os feriados cristãos?).

No entanto, estudiosos mais competentes, muitos séculos depois, se deram conta que na própria Bíblia estão presentes fortes elementos que indicam que Jesus na verdade nasceu pelo menos 2 ou até 7 anos antes da data anteriormente convencionada. A explicação é bem simples: na Bíblia fica claro que o nascimento de Jesus se deu sob o reinado de Herodes, o Grande. Porém Herodes, o Grande, faleceu no ano 4 antes de Cristo (imagino que o caixão devia ser imenso).

É engraçado porque, assim, é possível facilmente  concluir que Jesus nasceu antes de Cristo.

Voltando à profecia Maia. A data “malévola” é 21/12/2012, né? Faz até sentido, o número é meio cabalístico (21122012, ficaria mais legal se fosse em 20 de dezembro o derradeiro fim: 20122012). Só que essa data não chegou ainda. Vai demorar pelo menos 2 anos pro mundo “acabar”, por culpa de alguns vacilões que nem leram a porcaria do livro que eles próprios escreveram. Tudo bem, eu também não reli minha monografia quando a terminei, só queria me formar logo… mas minha monografia nunca mudou toda a história humana causando guerras, discórdia e intolerância – por enquanto.

Na verdade, se formos considerar a data do nascimento de Jesus como marco inicial para contagem dos anos, estamos no máximo em 2010. Em 2010. E 21/12/2010 é (foi) uma data que não mete medo em ninguém (não meteu, quando passou de mentirinha). Podemos até estar em 2005 ainda. E se eu me lembro bem, no ano de 2005 da nossa contagem falha, o mundo não acabou também.

Isso quer dizer que o calendário ali no canto inferior direito da sua tela é provavelmente uma grande mentira. Até eu posso inventar um modo de medição de data baseado em qualquer coisa e vai estar tão certo quanto o calendário do Windows atual calendário cristão.

Eu juro que a piada pareceu boa quando eu a imaginei...

Essa confusão toda me faz pensar que nos preocupamos tanto em “medir” o tempo que acabamos nos embananando e perdendo o ponto principal de registrar sua passagem: aproveitá-lo bem. Porque não faz tanta diferença como se mede o tempo, o que realmente importa é como o utilizamos.

E não só individualmente mas também como um todo. Nesses milhares de anos fizemos, enquanto espécie, muita merda. Fizemos muitas coisas boas também, mas ainda temos um longo caminho para melhorar e não merecer de fato o nosso próprio e prematuro fim.

Ps.: O “mundo” não vai acabar, nós vamos acabar. Só porque percebi que acabei de fato não falando disso. E isso é bem óbvio, também. É só pensar no quão grande é o universo e no quanto somos pequenos, frágeis e nocivos a nós mesmos.

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Um post sobre nada

Outro dia um amigo definiu meu blog como “um blog sobre nada”. A princípio eu pensei em argumentar e dizer “claro que não, é um blog sobre…” mas não consegui sequer completar a cadeia de raciocínio. Então é isso mesmo. É um blog sobre nada. A magia disso é que eu não preciso me prender a nenhum tema. Eu posso escrever sobre o que eu quiser aqui. Ironicamente, um blog sobre nada me permite escrever sobre tudo.

Hoje eu escolhi compartilhar alguns pensamentos acerca da religião no mundo. E já aviso que sou agnóstico beirando o ateísmo, portanto não espere nenhum tipo de pregação patética sobre como o sangue de Jesus tem poder.

O embrião de praticamente todas as religiões se apoia em dois pilares: a necessidade de se explicar tudo aquilo que o ser humano ainda não tinha capacidade de compreender e a urgência em estabelecer regras de convívio social que permitissem a co-existência pacífica entre os integrantes de um mesmo povo (ou quase isso). O segundo aspecto para mim é especialmente importante porque demonstra que a religião foi a primeira fonte de normas para resolução de conflitos e condutas socialmente aceitáveis em geral. Ainda que muita coisa se resolvesse com derramamento de sangue naquela época, as religiões buscaram criar alguma forma aceitável de justiça (mesmo que divina) para resolver problemas do cotidiano.

Por sorte o raio atingiu duas pedras que estavam no chão. Acho que ninguém ia curtir ter que olhar pra bunda de Moisés pra consultar os dez mandamentos.

Várias passagens do Velho Testamento não deixam dúvidas sobre esta função, por exemplo:

“Quem tiver ferido de morte um animal doméstico, dará outro em seu lugar: vida por vida.”
Levítico 24:18

É claro que naquela época haviam valores diferentes e algumas normas eram um pouco extremas:

“O filho de uma mulher israelita, tendo por pai um egípcio, veio entre os israelitas. E, discutindo no acampamento com um deles, o filho da mulher israelita blasfemou contra o santo nome e o amaldiçoou. Sua mãe chamava-se Salumite, filha de Dabri, da tribo de Dã. Puseram-no em prisão até que Moisés tomasse uma decisão, segundo a ordem do Senhor. Então o Senhor disse a Moisés:
‘Faze sair do acampamento o blasfemo, e todos aqueles que o ouviram ponham a mão sobre a sua cabeça, e toda a assembléia o apedreje’.”
Levítico 24:10-14

Liberdade de opinião não era um conceito popular naquela época.

Enfim, deu pra entender meu ponto. A religião serviu para regular a vida dos homens enquanto estes estavam muito mais próximos da selvageria do que da vida pacífica em sociedade, já que não haviam outros meios de controle social. Toda a noção de certo e errado provinha da sabedoria “divina”, já que o homem médio naquela época tinha um entendimento bastante limitado acerca da organização social e do próprio mundo que o cercava.

Hoje temos métodos científicos estabelecidos e milhares de anos de experiência adquirida sobre como viver em sociedade (apesar de ainda assim termos problemas), e as pessoas continuam precisando de algo maior do que a vida para acreditar – seja por estupidez, desesperança ou tradição. Eu concordo que realmente precisamos acreditar em alguma coisa. Só não acho que a escolha mais acertada seja crer em explicações totalmente absurdas que conflitam diretamente com dados científicos comprovadamente verdadeiros (tipo aqueles malucos que negam as teorias de Darwin e dizem que dinossauros nunca existiram), e que muitas vezes vão contra a evolução da compreensão humana a respeito de si mesma e do universo.

O modelo tradicional de religião já se mostrou completamente incapaz de fazer o que fazia antes: não consegue exercer de maneira eficiente o controle social de modo a pacificar a vida em sociedade,  e também não consegue explicar mais nada de maneira coerente. No fim das contas, a Justiça e a Ciência tomaram seu lugar nestes papeis. À religião restou a tarefa de servir de “muleta” para que as pessoas se apoiem e não precisem pensar muito, dando uma falsa esperança de que há algum tipo de ente superior responsável pelas desgraças no mundo – é bem menos complexo do que entender todas as variáveis necessárias para que algo ruim ou algo bom ocorra.

Se você vai acreditar em algo, acredite em você mesmo, nas pessoas que ama, no potencial humano e na capacidade de afetar tudo a sua volta e ser igualmente afetado com suas ações; a toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade: ou as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em direções opostas. A terceira lei de Newton pode ser lida de maneira análoga às palavras de uma figura conhecida no catolicismo:

“Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas”. 
Mateus 7:12 

Err, quem disse isso foi Jesus, pra quem não sabe. Ele aparentemente não sabia escrever, no entanto.

Eu dei uma ultra-simplificada na minha opinião porque deu preguiça de continuar escrevendo. Viver em sociedade é bem mais complicado do que seguir uma frase dita por Jesus, mas enfim, esse é definitivamente um bom ponto de partida.

Eu nunca pensei que fosse escrever um texto citando a Bíblia. O título não tem nada a ver com o que acabei escrevendo aqui, mas o blog é meu e eu quis assim. Um site bastante interessante é o The Brick Testament, que ilustra passagens absurdas da Bíblia com peças de lego.

Ps.: Jesus foi só um cara; um cara bastante inteligente e sábio, como todos os grandes filósofos, mas só um cara.